Título em inglês:
Adjuvant chemoradiotherapy versus radiotherapy alone in women with high-risk endometrial cancer (PORTEC-3): 10-year clinical outcomes and post-hoc analysis by molecular classification from a randomised phase 3 trial
Título em português:
Quimiorradioterapia adjuvante versus radioterapia isolada em mulheres com câncer de endométrio de alto risco (PORTEC-3): desfechos clínicos em 10 anos e análise post-hoc conforme a classificação molecular de um estudo randomizado de fase 3
Citação:
Post CCB, de Boer SM, Powell ME, Mileshkin L, Katsaros D, Bessette P, et al. Adjuvant chemoradiotherapy versus radiotherapy alone in women with high-risk endometrial cancer (PORTEC-3): 10-year clinical outcomes and post-hoc analysis by molecular classification from a randomised phase 3 trial. Lancet Oncol. 2025 Oct;26(10):1370-1381. doi: 10.1016/S1470-2045(25)00379-1.
Resumo do artigo
Embora a maioria das mulheres com câncer de endométrio apresente bom prognóstico, aquelas com características de alto risco possuem maior probabilidade de recorrência e morte. O estudo PORTEC-3 avaliou se a adição de quimioterapia à radioterapia pélvica poderia melhorar os desfechos nesse subgrupo. Esta publicação apresenta a análise pré-planejada com seguimento de 10 anos dos desfechos primários, bem como uma análise post hoc conforme a classificação molecular, além dos padrões de recorrência.
O estudo PORTEC-3 é um ensaio clínico randomizado de fase 3, multicêntrico, que comparou quimiorradioterapia adjuvante (dois ciclos de cisplatina 50mg/m2 nas semanas 1 e 4 durante a radioterapia 48,6Gy, seguido de 4 ciclos de carboplatina AUC 5 + paclitaxel 175 mg/m2 a cada 21 dias) versus radioterapia isolada (48,6 Gy) em mulheres com câncer de endométrio de alto risco. Foram consideradas de alto risco as pacientes com carcinoma endometrioide FIGO 2009 estágio I grau 3 com invasão miometrial profunda (≥50%) e/ou invasão linfovascular, estágios II–III de qualquer grau, ou ainda aquelas com histologia serosa ou de células claras nos estágios I–III. Ao todo, 660 pacientes foram incluídas e randomizadas 1:1 para cada braço do estudo.
O desfecho co-primário era sobrevida global e sobrevida livre de recorrência em 5 anos. Aos 10 anos, a sobrevida global foi de 74,4% no grupo quimiorradioterapia versus 67,3% no grupo radioterapia (HR 0,73; IC 95% 0,54–0,97; p=0,032). A sobrevida livre de recorrência foi de 72,8% versus 67,4%, respectivamente (HR 0,74; IC 95% 0,56–0,98; p=0,034). A maioria das recorrências ocorreu em sítios à distância — 25,7% após quimiorradioterapia e 30,5% após radioterapia isolada, com a maioria dos eventos acontecendo nos primeiros 2,5 anos de seguimento —, enquanto as recidivas vaginais e pélvicas foram incomuns (<2%), refletindo o excelente controle locorregional em ambos os braços.
A análise molecular foi realizada em 411 tumores (62%). O subgrupo com mutação de POLE apresentou excelente prognóstico, com sobrevida global em 10 anos de 98,0%. Tumores com deficiência das enzimas de reparo tiveram prognóstico intermediário e não se beneficiaram da quimiorradioterapia, com sobrevida global de 68,7% versus 74,4% (HR 1,34; IC 95% 0,71–2,55; p = 0,37). Já os tumores p53 anormais apresentaram prognóstico desfavorável, mas tiveram benefício significativo com quimiorradioterapia: sobrevida global de 52,7% versus 36,6% (HR 0,52; IC 95% 0,30–0,91; p = 0,021). O subgrupo não especificado (NSMP) mostrou heterogeneidade, com resultados influenciados pelo status do receptor de estrogênio. De forma geral, o grupo NSMP apresentou sobrevida global de 81,2% versus 74,1% (HR 0,60; IC 95% 0,27–1,32; p = 0,21). Nos tumores receptores de estrogênio positivos, que corresponderam à maioria dos casos, a sobrevida global em 10 anos foi de 81,8% versus 82,3%, sem diferença significativa (HR 1,00; IC 95% 0,55–1,82; p = 1,00). Já os tumores receptores de estrogênio negativos, cerca de 10% dos casos, apresentaram pior prognóstico e tendência de benefício com quimiorradioterapia (HR 0,58; IC 95% 0,24–1,39; p = 0,22), concentrando as recorrências precoces até 2,5 anos após o tratamento.
Assim, o PORTEC-3, com seguimento de 10 anos, demonstrou benefício sustentado da quimiorradioterapia sobre a radioterapia isolada no câncer endometrial de alto risco, especialmente nos tumores p53 anormais.
Comentário da avaliadora científica:
O PORTEC-3 fornece evidências robustas sobre a quimiorradioterapia nas pacientes com câncer de endométrio de alto risco. A caracterização molecular ocorreu em mais de 60% das pacientes, embora análises de subgrupos e exploratórias limitem o poder estatístico. O impacto clínico é relevante: sugere-se que, a depender do perfil molecular, estratégias de tratamento individualizadas possam ser oferecidas. Pacientes com tumores p53 anormais e NSMP com receptor de estrogênio negativos parecem ser as principais candidatas ao regime combinado, enquanto tumores POLE-mutados, com excelente prognóstico, parecem não derivar benefício dessa estratégia. Por outro lado, tumores deficientes podem se beneficiar mais de imunoterapia, conforme sugerido pela análise exploratória do estudo KEYNOTE-B21, enquanto o achado de heterogeneidade no grupo NSMP sugere um potencial papel para a terapia hormonal em casos estrogênio positivos. Portanto, a publicação reforça a integração da classificação molecular à prática clínica e afirma a necessidade de estudos prospectivos que validem tais estratégias. Por fim, a elevada incidência de metástases à distância com bom controle local reforça o racional para o uso sequencial de quimioterapia e radioterapia.
Avaliadora científica:
Dra. Mariana Carvalho Gouveia
Oncologista clínica pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) – São Paulo/SP
Oncologista clínica no Hospital 9 de Julho-Américas Oncologia
Instagram: marianacgouveia
Cidade de atuação: São Paulo/SP
Análise realizada em colaboração com a oncologista sênior Dra. Mariana Scaranti.
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