Comentário em vídeo:
Resumo do Artigo:
O estudo DeLLphi-304 avaliou a eficácia e a segurança do tratamento com tarlatamabe, comparado à quimioterapia, em pacientes com câncer de pulmão de pequenas células (CPPC) após progressão de doença após ou durante uma linha de terapia prévia baseada em platina.
Tarlatamabe é uma imunoterapia engajadora de células T biespecífica – BiTE “Bispecific T-cell Engager” – que liga concomitantemente a “delta-like ligand 3” (DLL3), expressa na superfície das células cancerígenas em 85% a 96% dos pacientes com CPPC, ao CD3 nas células T, levando à lise da célula tumoral sem depender do reconhecimento do MHC classe I.
DeLLphi-304 é um estudo de fase III, randomizado, aberto, multinacional, multicêntrico no qual os pacientes foram randomizados (1:1) para receber tarlatamabe ou quimioterapia – topotecano em todos os países exceto Japão; lurbinectedina na Austrália, na Coréia do Sul, no Canadá, em Singapura e nos Estados Unidos; amrubicina no Japão.
O estudo tinha como desfecho primário sobrevida global (SG) e como desfechos secundários principais, sobrevida livre de progressão avaliada pelo investigador (SLP) e os resultados relatados pelos pacientes. Nesta análise interina e pré-especificada foram relatados os resultados de tais desfechos.
Na população analisada, a média de idade foi de 65 anos e 44% dos pacientes tinham doença resistente à platina. Ambos os grupos tinham 45% de pacientes com metástases cerebrais, 35% de pacientes com metástases hepáticas e 71% de pacientes já expostos ao inibidor de PD-1/PD-L1.
Após um acompanhamento médio de 11,2 meses no grupo de tarlatamabe e de 11,7 meses no grupo de quimioterapia, a SG foi significativamente maior nos pacientes que receberam o tarlatamabe (13,6 meses vs 8,3 meses; IC 95% 0,47-0,77; P < 0,001).
Quanto aos desfechos secundários, a suposição de riscos proporcionais foi inválida, sendo o tempo médio restrito de SLP em 12 meses o método utilizado para análise da SLP que mostrou benefício para o grupo do tarlatamabe (5,3 vs 4,3; P < 0,002).
Necessário destacar que toxicidades de grau 3 ou mais foram mais frequentes no grupo da quimioterapia, 54% versus 80%. No que diz respeito a efeitos adversos próprios da classe farmacológica do tarlatamabe, síndrome de liberação de citocinas ocorreu em 56% dos pacientes (sendo majoritariamente grau 1-2 e apenas 1% grau 3) e síndrome de neurotoxicidade associada a célula efetora imune (ICANS) em 6% dos pacientes (um evento foi grau 5).
Com esse estudo de fase 3, ratifica-se a mudança de paradigma trazida pelo tarlatamabe no CPPC, colocando-o como novo padrão de tratamento em segunda linha e nos permitindo dar as boas-vindas, de uma vez por todas, para a terapia celular no grupo dos tumores de pulmão.
Comentário da avaliadora científica:
Desde as fases iniciais, o tarlatamabe chamou a atenção de quem acompanha de perto as novidades da oncologia torácica.
Na ESMO 2023, Dr. Paz-Ares apresentou dados que surpreenderam a comunidade oncológica: tarlatamabe, utilizado em pacientes já na terceira linha de tratamento, alcançou uma mediana de sobrevida global que superou a mediana observada nos pacientes em primeira linha.
Na ASCO 2025, o Dr. Charles Rudin apresentou os resultados do estudo de fase 3 que comparou tarlatamabe à quimioterapia em segunda linha para pacientes com câncer de pulmão de pequenas células. O estudo demonstrou ganho significativo em sobrevida global, consolidando o tarlatamabe como o novo padrão de tratamento nesse cenário.
Quando levamos em consideração a taxa de resposta e a duração desta resposta, a escolha fica ainda mais clara e o entusiasmo acaba nos encorajando a trilhar esse novo caminho com esta terapia.
Além da eficácia, os dados de segurança reforçam a relevância clínica do tarlatamabe. O tratamento foi associado a uma menor incidência de eventos adversos graves (grau ≥3) e também a menos eventos fatais (grau 5) em comparação com a quimioterapia, representando um avanço importante em tolerabilidade.
Ainda assim, é essencial reconhecer o novo perfil de toxicidades dessa imunoterapia, em especial a síndrome de liberação de citocinas (CRS) e o ICANS. Por esse motivo, recomenda-se que, ao menos inicialmente, as doses sejam administradas em centros preparados, com equipes médicas e multiprofissionais devidamente treinadas. A presença imediata de tocilizumabe disponível antes da infusão é fundamental, garantindo resposta rápida e segura diante de episódios de CRS.
Com esses dados, podemos afirmar que a imunoterapia está, de fato, transformando a prática clínica no CPPC, estabelecendo um novo paradigma para o cuidado desses pacientes.
Citação: Mountzios G, Sun L, Cho BC, et al., DeLLphi-304 Investigators. Tarlatamab in Small-Cell Lung Cancer after Platinum-Based Chemotherapy. N Engl J Med. 2025 Jul 24;393(4):349-361. doi: 10.1056/NEJMoa2502099.
Avaliadora científica:
Dr. Fernando Castilho Venero
Oncologista clínico pelo Hospital Moinhos de Vento – Porto Alegre/RS
Oncologista clínico, Pesquisador Clínico e Preceptor do PRM em Oncologia Clínica do Hospital Moinhos de Vento de Porto Alegre
Instagram: @fcvenero
Cidade de atuação: Porto Alegre/RS
Análise realizada em colaboração com o oncologista sênior Dr. Guilherme Harada.
Endereço
Avenida Paulista, 2073, Edifício Horsa II – Conjunto Nacional Conj. 1003, São Paulo/SP, 01311-300
Telefone
+55 (11) 3192-9284