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Impacto da atividade física na curabilidade do câncer colorretal [▶ Comentário em vídeo]

Comentário em vídeo:

 

Resumo do Artigo:

Nos últimos 20 anos, alguns estudos observacionais, destacando-se Meyerhardt et al em 2006, e metanálises, como Schmid & Leitzmann et al 2014, vêm demonstrando que pacientes com câncer colorretal que realizam maior atividade física após o tratamento, apresentam menor risco de recorrência e morte, especialmente naqueles com câncer de cólon em estágio III. O estudo CHALLENGE, apresentado na ASCO 2025 e publicado em julho de 2025 no NEJM, é o primeiro estudo de fase 3 randomizado que avaliou, de forma prospectiva, o impacto da atividade física estruturada como ferramenta terapêutica de pacientes diagnosticados com adenocarcinoma colorretal em estádios II e III após finalizados os tratamentos cirúrgico e de quimioterapia adjuvante.

Neste desenho, realizado por entidades públicas sem apoio da indústria farmacêutica, pacientes seriam acompanhados e divididos em 2 grupos: um deles receberia materiais de educação em saúde, promovendo atividades físicas e dieta saudável; o outro grupo também receberia este mesmo material, mas contaria com suporte de profissional ao longo de 3 anos. O objetivo era avaliar se os pacientes acompanhados por uma equipe capacitada iriam aumentar o tempo dedicado às atividades físicas aeróbicas por semana e, por conseguinte, o impacto dessa rotina de exercícios em termos, por exemplo, de sobrevida livre de doença e de sobrevida global.

No estudo, cerca de 900 pacientes foram randomizados; 1/3 dos pacientes tinha mais de 65 anos, havia certa equivalência na proporção de homens e mulheres, 40% dos pacientes eram obesos, 60% deles já haviam diagnosticado o que o artigo descreve como problema médico maior (hipertensão, dislipidemia, diabetes e afins). Havia predominância de pacientes com adenocarcinoma em estádio III (90% da população), e o principal regime de adjuvância foi FOLFOX, sem menção – no artigo – do tempo de tratamento.

A oferta de exercícios estruturados é dividida em fases, e, logo no início do acompanhamento, observa-se que cerca de 20% do grupo intervenção não é adequadamente aderente às atividades recomendadas, mas não obrigatórias. Na medida em que o tempo passa, essa proporção de pacientes aderentes aumenta para 40/50%, mostrando que a persistência é crucial no engajamento de pacientes na prática de atividade física. Apesar dessa dificuldade inicial na incorporação de atividade física regular na rotina, quando se comparam objetivamente os 2 grupos, observa-se que o grupo que recebe suporte de um profissional habilitado evoluiu com maior tempo dedicado às atividades físicas moderadas-intensas, dado corroborado por análises objetivas como, por exemplo, aumento no consumo de oxigênio predito máximo e na distância percorrida em caminhada de 6 minutos, variáveis que não se modificariam a menos que o paciente de fato fosse mais ativo.

Do ponto de vista de desfechos oncológicos, observa-se que os dois desfechos de interesse foram muito impactados com as intervenções comportamentais e de atividade física supervisionadas: houve redução do risco de recorrência, novo tumor primário e morte de 28%, representando uma diferença absoluta em termos de SLD de 6,4% (aos 60 meses, a SLD aumenta de 73 para 80%), e a sobrevida global, aos 96 meses, aumenta de 83 para 90%, diferença absoluta de 7%, que é a tradução da redução do risco de morte de 37%. O que se vê é que esse ganho é dirigido principalmente por redução de recorrência hepática e de novos tumores primários (como mama, próstata e colorretal), ou seja, aumenta-se a curabilidade da doença e previne-se em relação a outros diagnósticos; isso é reforçado pela informação de que não há diferença entre os grupos quando o desfecho observado é a morte sem a ocorrência de evento de recidiva ou de novo diagnóstico antes de o paciente falecer.

 

Comentário do avaliador científico:

O fomento à realização de atividade física já é prática oncológica regular; entretanto, os dados do CHALLENGE são os primeiros que demonstram o impacto deste tipo de intervenção em termos de sobrevida. O exercício pode ser um tratamento eficaz para micrometástases de câncer de cólon e prevenção de segundas neoplasias primárias por meio de vários mecanismos, incluindo vigilância imunológica aprimorada, redução da inflamação, melhora da sensibilidade à insulina e microambiente alterado dos principais locais de metástases. Em particular, o exercício pode afetar fatores de crescimento metabólico, como insulina e fatores de crescimento semelhantes à insulina, que promovem a proliferação e a progressão das células cancerígenas.

Apesar das limitações do estudo aqui citado, pontuadas pelos próprios autores – baixo recrutamento em intervalo longo de tempo, por exemplo – não houve grandes mudanças no tratamento de pacientes com esse perfil de doença nos últimos anos, o que minimiza o risco de as questões estatísticas comprometerem a validade dos dados observados. Ademais, a escolha desse perfil de pacientes é excelente, porque se compararmos o câncer colorretal com outras neoplasias muito incidentes e com alta mortalidade, como câncer de mama ou de pulmão, há uma heterogeneidade muito maior entre estas tanto do ponto de vista prognóstico quanto do ponto de vista terapêutico, o que certamente dificultaria a análise dos achados se a população fosse outra.

O CHALLENGE confirma, portanto, que a importância da atividade física regular precisa ser sempre revisitada nas consultas, porque ela muda o prognóstico desta doença. Se este estímulo à atividade física for acompanhado pelo apoio de profissionais que possam ajudar os pacientes neste engajamento, melhor ainda.

 

Citação: Courneya KS, Vardy JL, O’Callaghan CJ, et al. CHALLENGE Investigators. Structured Exercise after Adjuvant Chemotherapy for Colon Cancer. N Engl J Med. 2025 Jul 3;393(1):13-25. doi: 10.1056/NEJMoa2502760.

 

Avaliador científico:

Dr. Antonio Pedro Nicoletti

Oncologista clínico pelo Hospital de Clínicas – Porto Alegre/RS

Oncologista na Clínica Soma, Grupo Elora e Centro de Pesquisas Oncológicas de Santa Catarina – Florianópolis/SC

Mestrado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Aperfeiçoamento em Oncogeriatria pelo Hospital Sírio-Libanês

Instagram: @apedro_nicoletti

Cidade de Atuação: Florianópolis/SC

Análise realizada em colaboração com o oncologista sênior Dr. Ricardo Cembranelli Teixeira.

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Editora
Dra. Martina Arenhardt
Médica oncologista pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Saiba mais.
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