Comentário em vídeo:
Títulos dos artigos em inglês:
Hyperthermic intraperitoneal chemotherapy for recurrent ovarian cancer (CHIPOR): a randomised, open-label, phase 3 trial
Hyperthermic Intraperitoneal Chemotherapy in Platinum-Sensitive Recurrent Ovarian Cancer: A Randomized Trial on Survival Evaluation (HORSE; MITO-18)
Citações:
Resumo dos artigos:
Cerca de 70% das pacientes com câncer de ovário experimentam quadro de recidiva após o tratamento padrão. O peritônio é o local mais comum dessa recidiva, o que tem levado à exploração de estratégias locais para reduzir esse risco. Evidências sugerem que a quimioterapia intraperitoneal hipertérmica (HIPEC) durante a cirurgia de citorredução de intervalo para o câncer de ovário recém-diagnosticado reduz o risco de morte em cerca de 30%.
No caso do câncer de ovário recidivado, poucos dados de HIPEC estavam disponíveis. Em 2021, Zivanovic e colaboradores publicaram um estudo de fase II que não demonstrou benefício da adição de HIPEC com carboplatina durante a cirurgia de citorredução secundária, seguida de quimioterapia sistêmica. Neste estudo, o intervalo médio livre de platina foi de 16 meses e não foi observada diferença significativa na sobrevida global mediana entre os braços. ³
Aqui, comentaremos brevemente sobre duas recentes publicações avaliando HIPEC na cirurgia de citorredução secundária. O estudo de fase III HORSE/MITO-18 incluiu 167 pacientes randomizadas para cirurgia de citorredução secundária com HIPEC com cisplatina seguido de quimioterapia sistêmica versus cirurgia de citorredução sem HIPEC seguido de quimioterapia sistêmica. O estudo não atingiu seu objetivo primário de sobrevida livre de progressão, com resultados de 25 meses no braço HIPEC versus 23 meses no braço sem HIPEC. Algumas possíveis razões para esse resultado incluem a seleção de uma coorte altamente sensível à quimioterapia a base de platina (intervalo médio livre de platina de 18 meses), baixa complexidade cirúrgica em 87% das pacientes e alta prevalência de tumores com mutação em BRCA1/2, que podem ter um benefício limitado com a HIPEC. Vale destacar que, apesar da alta prevalência de mutações em BRCA, apenas uma pequena proporção de pacientes recebeu inibidores de PARP. 1
Já o estudo CHIPOR é um estudo de fase III que avaliou o papel da HIPEC no câncer de ovário recidivado em um cenário um pouco diferente. Após seis ciclos de quimioterapia neoadjuvante à base de platina, as pacientes (n=415) aptas a realizar uma citorredução secundária completa foram randomizadas para receber HIPEC com cisplatina ou não. O estudo avaliou uma população quimiossensível: aproximadamente metade das pacientes tinha um intervalo livre de platina superior a 18 meses, três quartos apresentaram histologia de câncer seroso de alto grau e um quarto tinha mutação em BRCA. A sobrevida global foi melhorada com HIPEC (54,3 meses vs. 45,8 meses, HR 0,73, p = 0,024), apesar de uma pequena diferença na sobrevida livre de progressão mediana HIPEC 10.2m no braço HIPEC versus 9.5m sem HIPEC. 2
Comentário do avaliador científico:
Os estudos que avaliam o uso de HIPEC no cenário de câncer de ovário recidivado apresentam resultados mistos. Dois estudos relevantes não demonstraram benefício em sobrevida global, enquanto o estudo de fase III CHIPOR foi positivo. Este último, porém, incluiu pacientes tratadas com quimioterapia neoadjuvante antes da cirurgia. Portanto, esses ensaios utilizaram estratégias variadas e populações heterogêneas, limitando sua aplicabilidade em diferentes contextos clínicos.
Diante destas evidências conflitantes, a HIPEC não deve ser considerada como tratamento padrão em casos de câncer de ovário recidivado. Além disso, o alto risco de complicações pós-operatórias ressalta a importância e necessidade de uma cuidadosa seleção de pacientes, além da realização desses procedimentos em centros especializados. Até que surjam evidências mais robustas, o uso de HIPEC em câncer de ovário recidivado deve continuar restrito a ensaios clínicos ou a pacientes selecionadas de forma criteriosa.
Avaliador científico:
Dra. Rafaela Melo Campos Borges
Oncologista clínica no Hospital Nove de Julho (DASA Oncologia) – São Paulo/SP
Oncologista clínica pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Campinas/SP
Instagram: @rafaelaborges.oncologia
Cidade de atuação: São Paulo/SP
Análise realizada em colaboração com a oncologista sênior Dra. Mariana Scaranti.
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