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Impacto das antraciclinas no câncer de mama inicial, linfonodo negativo, HR positivo/HER2 negativo de alto risco genômico.

Citação:

Chen N, Freeman J, Yarlagadda S, Atmakuri A, Kalinsky K, Pusztai L,Sparano J, et.al. Impact of anthracyclines in genomic high-risk, node-negative, HR-positive/HER2-negative breast cancer. Ann Oncol. 2025 Nov;36(11):1356-1365. doi: 10.1016/j.annonc.2025.08.002

Resumo do artigo:

O benefício das antraciclinas no tratamento adjuvante de pacientes com câncer de mama estadio inicial, receptor hormonal positivo (HR+) /HER 2 negativo (HER2-) de alto risco genômico não é claro, apesar do amplo uso do escore de recorrência (RS) na prática clínica para definição do tratamento oncológico. Este artigo, baseado em análise post hoc do estudo TAILORx, teve como objetivo avaliar o benefício da adição de antraciclinas à quimioterapia adjuvante baseada em taxanos em pacientes com RS≥31.

Foram incluídas pacientes estadios I/II, linfonodo negativo, RH+/HER2- com RS≥11 que receberam tratamento com taxanos/ciclofosfamida (TC), taxano associado a antraciclina /ciclofosfamida (T-AC), antraciclina sem taxano (AC) a ciclofosfamida, metotrexato e fluoracil (CMF). O desfecho primário do estudo avaliou o intervalo livre de recorrência à distância (ILRD) no grupo RS≥31 tratado com TC versus T-AC. Os desfechos secundários incluíram intervalo livre de recorrência (ILR), sobrevida livre de recorrência à distância (SLRD), sobrevida livre de recorrência (SLR), sobrevida livre de doença (SLD) e sobrevida global (SG) em pacientes que receberam TC, T-AC e outros regimes quimioterápicos. Foi utilizada regressão spline para estimar a razão de risco ajustada (aHR) nos grupos T-AC versus TC para esses desfechos em função do RS com limite de significância de P<0,05.

Das 7789 pacientes com RS≥11 que apresentavam critérios de elegibilidade com covariáveis conhecidas (idade, status receptor de estrogênio/progesterona, tamanho do tumor e grau), 2549 delas receberam esquema T-AC ou TC. Das pacientes com RS ≥31, 306 receberam TC, 187 receberam AC, 173 receberam T-AC e 22 receberam CMF. Observou-se que pacientes tratadas com T-AC eram mais novas (53 vs 55 anos de idade), hispânicas (16% vs 7%), pré-menopausadas (42% vs 36%), apresentavam tumores maiores (média 20 mm vs 18 mm), com maior grau histológico (36% vs 24%), com receptor de estrogênio negativo (2,5% vs 1%) ou progesterona negativo (21% vs 14%) e maior RS (média 30 vs 23) quando comparadas com pacientes tratadas com TC. Em pacientes com RS≥31, o intervalo livre de recorrência à distância em 5 anos foi de 96,1% no grupo T-AC vs 91% no grupo TC (aHR 0,31; P=0,006) com aumento da sobrevida livre de recorrência à distância (SLRD) de 95,4% vs 89,8% (aHR 0,49; P=0,032) e uma tendência a maior sobrevida global (SG) em 5 anos de 97,3% vs 93,6% (aHR0,67; P=0.31). A regressão spline demonstrou um aumento no benefício do uso de antraciclina com o aumento do RS assim como a melhora significativa dos outros desfechos de recorrência (SLR, IRR e SLD) em pacientes RS≥31 que receberam T-AC (P=0,001). Já em relação ao status menopausal, este benefício foi similar em ambos os grupos de pré e pós-menopausa. Em relação às pacientes com tumores estadio T1 (até 2 cm), não houve benefício claro do uso das antraciclinas. Ao analisar outros regimes quimioterápicos, o CMF foi associado à melhora do desfecho de ILRD em pacientes com RS≥31 embora o teste de interação não tenha sido estatisticamente significante (aHR 2,99; P=0,047; P de interação 0,16).

O autor conclui que pacientes com câncer de mama HR+/HER2- em estadio inicial, com doença de maior risco genômico (RS≥31) podem se beneficiar da adição de antraciclina à quimioterapia adjuvante associada ao taxano. O teste de RS genômico pode prever o benefício de antraciclina com maior precisão do que fatores clinicopatológicos como o estado linfonodal.

Comentário da avaliadora científica:

Apesar deste estudo demonstrar benefício de antraciclina adjuvante em pacientes com tumor >2 cm e RS≥31, este benefício foi estatisticamente significativo apenas quando fatores clinicopatológicos (tamanho, grau do tumor e idade do paciente) controlados. Esses ajustes são necessários, visto que o RSClin demonstra melhor predição do benefício da quimioterapia através do ajuste dos fatores de riscos clínicos. Além disso, é importante ressaltar que o estudo TAILORx não tinha poder estatístico formal para avaliar o benefício do uso de antraciclinas no cenário de doença inicial, linfonodo negativo com RS ≥31 uma vez que foram analisadas apenas 725 pacientes neste cenário. Quando optado pelo uso das antraciclinas, deve-se ponderar cuidadosamente os riscos de toxicidade e morbidade associados a esta medicação, os quais não foram avaliados neste presente estudo. Desta forma, idealmente novos estudos deverão ser conduzidos a fim de avaliar o real benefício e segurança das antraciclinas no tratamento quimioterápico adjuvante de pacientes com câncer de mama inicial, linfonodo negativo, RH+/HER2-, considerando a análise conjunta dos fatores de risco clínico e genômico.

 

Avaliadora científica:

Dra. Beatriz Alvarenga Gonzales

Oncologista clínica pelo Hospital A.C.Camargo Cancer Center – São Paulo/SP

Oncologista no Hospital Municipal Vila Santa Catarina

Oncogeneticista do Grupo Oncoclínicas

Pós-graduada em Predisposição Hereditária ao Câncer (Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein) e Aconselhamento Genético (City of Hope, EUA)

Instagram: @drabeatrizgonzales

Cidade de atuação: São Paulo/SP

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Editora
Dra. Martina Arenhardt
Médica oncologista pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Saiba mais.
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