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Nova opção de tratamento na primeira linha do câncer de mama triplo-negativo avançado

Título em inglês:

Sacituzumab Govitecan in Untreated, Advanced Triple-Negative Breast Cancer

 

Título em português:

Sacituzumabe Govitecano em Câncer de Mama Triplo-Negativo Avançado e Virgem de Tratamento

 

Citação:

Cortés J, Punie K, Barrios C, Hurvitz SA, Schneeweiss A, Sohn J, et al. ASCENT-03 Clinical Trial Investigators. Sacituzumab Govitecan in Untreated, Advanced Triple-Negative Breast Cancer. N Engl J Med. 2025 Nov 13;393(19):1912-1925. doi: 10.1056/NEJMoa2511734.

 

Resumo do artigo:

O estudo ASCENT-03 é um ensaio internacional, fase III, aberto e randomizado, que avaliou o sacituzumabe govitecano como tratamento inicial para pacientes com câncer de mama triplo-negativo localmente avançado, irressecável ou metastático. Sacituzumabe govitecano é um anticorpo conjugado a droga (ADC) composto por um anticorpo monoclonal anti-Trop-2 ligado, por meio de um linker clivável, ao agente citotóxico SN-38, um inibidor de topoisomerase I.

As pacientes não haviam sido tratadas no cenário de doença avançada e eram inelegíveis ao uso de anti–PD-1/PD-L1 por critérios pré-definidos, incluindo: PD-L1 negativo (CPS < 10), exposição prévia a anti–PD-1/PD-L1 no contexto neoadjuvante/adjuvante ou condições clínicas consideradas contraindicações absolutas ou relativas à imunoterapia. Foram incluídas 558 pacientes, randomizadas 1:1 para receber sacituzumabe govitecano ou quimioterapia (paclitaxel, nab-paclitaxel ou gemcitabina/carboplatina). A população era majoritariamente composta por tumores PD-L1 negativos (99%).

O desfecho primário foi a sobrevida livre de progressão (SLP), avaliada por revisão central independente e cega. Entre os desfechos secundários estavam sobrevida global (SG), taxa de resposta objetiva (TRO), duração da resposta e segurança. A mediana de seguimento foi de 13,2 meses. sacituzumabe govitecano apresentou SLP mediana de 9,7 meses (IC 95%: 8,1–11,1) versus 6,9 meses com quimioterapia (IC 95%: 5,6–8,2), com hazard ratio (HR) de 0,62 (IC 95%: 0,50–0,77; p < 0,001). A TRO foi semelhante entre os braços, 48% (IC 95%: 42–54) e 46% (IC 95%: 40–52). A duração mediana da resposta foi maior com sacituzumabe govitecano (12,2 meses; IC 95%: 9,7–13,8) que com quimioterapia (7,2 meses; IC 95%: 5,7–8,4). A SG estava imatura, com medianas de 21,5 meses (IC 95%: 17,7–não alcançado) e 20,2 meses (IC 95%: 18,2–não alcançado); devido à maturidade de 37%, não foi realizado teste estatístico formal. Houve elevado crossover, com 82% das pacientes inicialmente alocadas à quimioterapia posteriormente recebendo sacituzumabe govitecano após progressão.

Quanto à segurança, eventos adversos de qualquer grau ocorreram em 99% das pacientes tratadas com sacituzumabe govitecano e em 97% das tratadas com quimioterapia. No braço sacituzumabe govitecano, os eventos mais comuns foram neutropenia (67%), diarreia (54%), náuseas (61%) e alopecia (55%). No braço quimioterapia, destacaram-se neutropenia (57%), anemia (50%) e fadiga (47%). Eventos de grau ≥3 ocorreram em 66% e 62% dos casos, respectivamente. A descontinuação por toxicidade foi menor com sacituzumabe govitecano (4%) do que com quimioterapia (12%). Houve sete óbitos relacionados ao tratamento no braço experimental e um (<1%) no braço quimioterapia. Todos os óbitos relacionados ao tratamento foram infecciosos, sendo cinco secundários à neutropenia; nenhuma dessas pacientes havia recebido profilaxia primária.

Sacituzumabe govitecano prolongou a SLP em comparação à quimioterapia na primeira linha do câncer de mama triplo-negativo avançado, com maior duração de resposta e TRO semelhante entre os grupos. Quanto à toxicidade, houve maior incidência de neutropenia e eventos infecciosos no braço experimental, incluindo óbitos precoces associados à neutropenia. Os achados reforçam o desempenho clínico da droga nesse cenário.

 

Comentário da avaliadora científica:

O ASCENT-03 traz evidências relevantes para a prática clínica ao explorar uma nova opção de tratamento na primeira linha de pacientes com câncer de mama triplo-negativo, uma população com poucas alternativas terapêuticas, especialmente entre aquelas inelegíveis à imunoterapia. O ganho de SLP e a maior duração de resposta observados com sacituzumabe govitecano reforçam seu potencial nesse cenário. A elevada taxa de crossover reflete o padrão de cuidado, já que o medicamento é eficaz em linhas subsequentes; assim, eventual ganho em SG nas análises futuras conferirá maior robustez ao resultado.

Na interpretação dos resultados, é importante considerar as características do braço controle, que incluía taxanos ou carboplatina–gemcitabina. No estudo, 58% das pacientes já haviam recebido taxano adjuvante e, na análise de subgrupos, o benefício do ADC foi mais evidente nessa comparação. A reexposição pode reduzir a efetividade, enfraquecendo o desempenho do controle. Já frente à carboplatina–gemcitabina, o intervalo de confiança cruzou a unidade, sugerindo menor clareza de efeito.

Quanto à segurança, a alta incidência de neutropenia e eventos infecciosos exige avaliação cuidadosa do risco hematológico e consideração de profilaxia primária. A menor taxa de descontinuação sugere boa tolerabilidade, embora o caráter aberto do estudo possa influenciar decisões de interrupção. No conjunto, os resultados ampliam as opções terapêuticas iniciais para esse grupo historicamente limitado, mas requerem um olhar crítico, sobretudo diante da potencial toxicidade financeira dessa estratégia.

 

Avaliadora Científica:

Dra. Letícia Vecchi Leis

Oncologista Clínica pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) – São Paulo/SP

Assistente do Grupo de Tumores Ginecológicos do ICESP e oncologista clínica na Rede D’Or

Instagram: @leisleticia

Cidade de atuação: São Paulo/SP

 

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Editora
Dra. Martina Arenhardt
Médica oncologista pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Saiba mais.
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