Título em inglês:
Organ preservation after neoadjuvant long-course chemoradiotherapy versus short-course radiotherapy
Título em português:
Preservação de órgão após quimiorradioterapia de curso longo neoadjuvante versus radioterapia de curso curto
Citação:
Bercz A, Park BK, Pappou E, et al. Organ preservation after neoadjuvant long-course chemoradiotherapy versus short-course radiotherapy. Ann Oncol. 2024 Nov;35(11):1003-1014. doi: 10.1016/j.annonc.2024.07.729.
Resumo do artigo:
Após tratamento neoadjuvante total (TNT), a preservação do reto em pacientes com resposta clínica completa (cCR) é o desfecho mais almejado e evita ostomias definitivas. Estudos prospectivos comparando radioterapia (RT) de curso curto e quimiorradioterapia (QTRT) de curso longo mostram sobrevidas livres de recidiva (SLR) similares, mas dúvidas persistem sobre qual o melhor regime para preservação do órgão.
Este estudo retrospectivo, não randomizado, incluiu pacientes com adenocarcinoma de reto, em neoadjuvância. O desfecho primário foi a taxa de preservação do reto em 2 anos, e os desfechos secundários foram recidiva local, recorrência à distância, sobrevida livre de doença (SLD) e sobrevida global (SG).
Foram permitidas RT conformada/tridimensional (RT3D) ou RT de intensidade modulada (IMRT). Na RT de curso curto foi administrada a dose de 2500 centigray (cGy) divididos 5 frações (fr), preferencialmente iniciada na segunda-feira e finalizada na mesma semana. Na QTRT de curso longo, a RT3D foi administrada na dose de 4500 cGy a 5400 cGy divididos em 28-30 fr, e a IMRT, na dose de 4698 cGy a 5400 cGy em 27 fr ou 4500 cGy a 5400 cGy em 25 fr. Em ambas as coortes, os pacientes receberam quimioterapia (QT) de indução ou consolidação com esquemas CAPOX (capecitabina e oxaliplatina) ou FOLFOX (5- fluoracill, leucovorin e oxaliplatina).
Oito semanas após o término do TNT, os pacientes eram submetidos a exames para avaliação de resposta que consistia em exame clínico, endoscopia e ressonância magnética para documentar se houve cCR. Os pacientes com cCR eram elegíveis para “wacht and wait” (WW), e aqueles com resposta quase completa eram reavaliados em 6-12 semanas e, caso alcançassem cCR, era oferecido o WW. Os que não atingissem cCR eram encaminhados para excisão total do mesorreto (ETM).
De janeiro de 2018 a janeiro de 2021, 323 pacientes foram elegíveis, 247 para QTRT de curso longo e 76 para RT de curso curto. As características dos pacientes e da neoplasia foram balanceadas entre os grupos e não houve diferença nas características de pior prognóstico. A maior parte recebeu QT de indução seguido de QTRT (77% QTRT de curso longo versus 70% RT de curso curto) e a modalidade de RT mais usada foi a IMRT (61% QTRT de curso longo versus 74% RT de curso curto).
Durante seguimento mediano de 13 meses, 110 (44,5%) pacientes da QTRT de curso longo e 33 (43,4%) na RT de curso curto atingiram cCR e foram elegíveis ao WW. A taxa de cCR foi maior no grupo que iniciou o tratamento pela RT seguido de QT de consolidação quando comparado à QT de indução seguido de RT (53% versus 44%, na QTRT de longa duração e 52% versus 43%, na RT de curso curto).
Durante o acompanhamento, 21 pacientes (19%) na QTRT de curso longo e 11 (33%) na RT de curso curto tiveram recidiva local. Na população geral, a taxa de preservação de órgão em 2 anos foi 40% na QTRT de curso longo (IC 95%, 34% – 46%) versus 31% (IC 95%, 22% – 44%) na RT de curso curto. Nos pacientes elegíveis ao “WW”, a QTRT de curso longo resultou em maior taxa de preservação do órgão em 2 anos quando comparada à RT de curso curto (89% QTRT de curso longo; IC 95%, 83% – 95% versus 70% RT de curso curto; IC 95%, 55% – 90%; P =0.005) e em menor taxa de recorrência local (19% QTRT de curso longo; IC 95%, 11% – 26% versus 36% RT de curso curto; IC 95%, 16% – 52%; P=0.072), mas não houve diferença em taxa de recorrência à distância em 2 anos (10% versus 6%), SLD (90% versus 90%) e SG (99% versus 100%).
Comentário do avaliador científico:
Nesse estudo não randomizado, a RT de curso curto, modalidade mais cômoda e preterida principalmente durante a pandemia do COVID 19, não mostrou diferença em relação à SG, SLP, recorrência à distância e cCR quando comparada a QTRT de curso longo, sendo uma opção segura para os pacientes realizando TNT. No entanto, na população selecionada para WW, a RT de curso curto foi inferior na taxa de preservação do órgão em 2 anos (40% versus 31%, a favor de QTRT de curso longo) e apresentou maior taxa de recidiva local (19% QTRT de curso longo versus 36% RT de curso curto), evidenciando que a RT de curso longo parece ter uma resposta mais duradoura. Portanto, se o objetivo principal for a preservação do órgão, a QTRT de curso longo parece ser a opção preferida.
Os pacientes que iniciaram TNT pela RT seguido de QT de consolidação tiveram maior sucesso na cCR quando comparados à QT de indução seguida pela RT, sendo a primeira abordagem a mais indicada para aqueles cujo objetivo é a preservação do órgão.
Aguardamos estudos randomizados que esclareçam a eficácia das duas abordagens radioterápicas na taxa de preservação do órgão e nos demais desfechos oncológicos a fim de confirmar os resultados deste estudo.
Avaliador científico:
Dra. Bruna Jovane Amorim Landim
Oncologista clínica no Hospital do Câncer de Pernambuco, no Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira e no Grupo Oncoclínicas – Recife/PE
Residência em Oncologia Clínica pelo Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira – Recife/PE.
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